Se me queres só para flor, me esquece, amado.
Sou arbusto repleto de espinhos,
sou planta silvestre ao pé do calvário,
sou vento agreste que desfaz o ninho.
Sou fruta doce, mas braba
que amarga no fim
queimando seus lábios
e eu só sei ser assim…
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Lidiane Santana
Afeito ao rude, ao árido
a sina do cacto
é munir-se de espinhos
mas desembestar a florir.
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Lidiane Santana
Do meu livro, Quintal de Terra Vermelha (2021, Litteralux)
Como o mar que ali desponta
infinito na enseada
são as tristezas sem conta
e as alegrias, contadas.
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Lidiane Santana
Do meu livro, Quintal de Terra Vermelha (2021, Litteralux)
Lembro a infância tão sonora
de arapuca e passarinho
e a gente roubando amoras
pelo quintal do vizinho.
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Lidiane Santana
Do meu livro, Quintal de Terra Vermelha (2021, Litteralux)
Na rua, no transporte, no trabalho,
abarrotado, o ermo se faz multidão.
Desdéns ecoam em voz familiar
na defensiva dos eus
— não fortalezas, não barricadas
mas redomas frágeis
onde o medo fecunda a lei:
quem foi parido Mateus
que se embale.
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Lidiane Santana
Do meu livro, Quintal de Terra Vermelha (2021, Litteralux)
Outro mês,
outra vez,
espatifa-se a romã
entre vermelhos e sementes.
Incógnita de si,
a altivez se esconde atrás da nuvem.
Chovem ímpetos ruidosos em seu silêncio
ais e calafrios,
abrupta torrente
fluidos fecundos:
numa mulher habita o mundo.
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Lidiane Santana
No escuro mudo
estala
um vazio lancinante
— eles se foram, mas eu fiquei em mim
sob sete palmos de lembranças.
Em casa, o pé-direito pontual
a impedir que o ontem sobreponha o hoje.
Será possível medir
o desalento por metro quadrado?
Eles me sorriem dos porta-retratos
e eu, pacientemente, espero a minha vez.
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Lidiane Santana
Do meu livro, Quintal de Terra Vermelha (2021, Litteralux)
Manejo palavras
conta por conta
até brotarem colar
— eis, pois, o meu ofício.
E na carência absurda
de expressão na fala humana
que fielmente traduza
a procura
o sem sentido
a lacuna
peço que leiam em mim
esta palavra nenhuma.
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Lidiane Santana
Só ao bem-te-vi é permitido
cantar ao pé do meu ouvido
assim, pela manhã.
Diga-me o mínimo possível,
que eu acordo feito raio de Iansã...
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Lidiane Santana
O vaga-lume no meu quarto era a luz do stand-by.
O campo verdejante, um descanso de tela.
Só meus sentimentos, esses brutos animais,
destoam como objetos perdidos
em meio à utilidade doméstica.
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Lidiane Santana
moleques baldios
atravessam a nado
o mar de concreto
brotam do asfalto
feito erva daninha
entre escombros e estatísticas
são noticiados
sem serem vistos
filhos de pedras anônimas
navegam à deriva
e, dos lares desmantelados,
avessos
qual veleiros no céu
naufragando em brancas nuvens
sussurram por trás das vagas:
— Mas por que foi que nos chamaram?
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Lidiane Santana
Já perdi amigos, amores, pares de meias,
guarda-chuvas e canetas esferográficas.
E hoje eu rogo
para não perder a fé na vida.
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Lidiane Santana
Quis também eu cantar o Amor em versos
No estilo clássico à posteridade
Mas o poema parou na metade
Entre papéis e rabiscos dispersos
Meus sentimentos ficaram submersos
No rigor da forma contra a vontade
Com risco de expressar menos verdade
A obra teve reparos diversos
Pelo compasso aflito de um terceto,
os ossos de Bocage sacudiram
Hoje, só verso moderno remeto.
Com decassílabos já não me meto
No ajuste, poucas rimas acudiram
E a emenda saiu pior que o soneto.
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Lidiane Santana