Poemas

Bom dia!


Só ao bem-te-vi é permitido

cantar ao pé do meu ouvido

assim, pela manhã.


Diga-me o mínimo possível,

que eu acordo feito raio de Iansã...

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Lidiane Santana


Geração Y


O peso cotidiano me esmaga

mais do que a bigorna

caindo em cima do Coyote.

Os adultos são caricaturais

e me lembram os personagens da infância

só um pouco mais tristes

e decadentes...

Há cores supersaturadas, sons agudos

e meus olhos vidrados em telas acesas

— caleidoscópios viciantes,

muito café pra seguir,

depois sedativos pra apagar,

mas nenhum Cavalo de Fogo pra fugir a galope

e atravessar um portal encantado

pra outros mundos.

A moral da história

tem um vago gosto de

"não te avisei,

pois na minha vez,

ninguém me disse nada".

Maniqueísmos do avesso

com a etiqueta pra fora

onde se lê instruções que eles ditam

e não seguem.

Seus bons-dias, poses e positividades

apregoam

o faz de conta revisitado

a embalar, agora, ilusões

em vez de açúcar.

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Lidiane Santana

Roseira brava

Não me cultive em jardins

à mercê do seu paisagismo

para colher depois com fastio

que não sou flor de arranjo.

Nem quero a proteção da estufa

se não posso ser quem sou.

Padeço o vento, a chuva, o calor

mas mantenho minha postura

Roseira brava

nascida do solo rude,

solta entre o mato corrido

não despetala a qualquer rumor.

Tampouco enfeita seu centro de mesa.

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Lidiane Santana

Danúbio azul


Trazida ao limite

corda de instrumento tesa

a um dedo de arrebentar


a vida me dilacera

rindo e volteando

de par em par...


uma valsa de Strauss

numa cena de Tarantino


implacável e bela

destituída de propósito ou sentido.

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Lidiane Santana

Incongruência

O vaga-lume no meu quarto era a luz do stand-by.

O campo verdejante, um descanso de tela.

Só meus sentimentos, esses brutos animais,

destoam como objetos perdidos

em meio à utilidade doméstica.

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Lidiane Santana

Os castelos


Erguem-se na verve ilusória

do acaso, um feliz momento

na busca de um ideal

que com ternura alimento


Mas a vida é tão simplória:

castelos em desalento

morrem na crueza banal

do meu desapontamento.

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Lidiane Santana


Angústia vital


Sou pássaro de asas cortadas

à espera de um céu que não virá


Sou cavalo malferido

à espera do tiro de misericórdia


Sou iludida na vida

à espera de que o bem suplante o mal


Sou flor que nasceu no asfalto

à espera de um Drummond


Sou mensagem decisiva

à espera da resposta


Sou a própria espera

à espera de um novo impasse.

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Lidiane Santana


Ossário


No escuro mudo

estala

um vazio lancinante

— eles se foram, mas eu fiquei em mim

sob sete palmos de lembranças.

Em casa, o pé-direito pontual

a impedir que o ontem sobreponha o hoje.

Será possível medir

o desalento por metro quadrado?

Eles me sorriem dos porta-retratos

e eu, pacientemente, espero a minha vez.

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Lidiane Santana



Desconstrução


Se me queres só para flor, me esquece, amado.

Sou arbusto repleto de espinhos,

sou planta silvestre ao pé do calvário,

sou vento agreste que desfaz o ninho.


Sou fruta doce, mas braba

que amarga no fim

queimando seus lábios

e eu só sei ser assim…

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Lidiane Santana